Resumos

 

Silos. Armazenamento, controlo e distribuição de cereais em Espanha no Século XX.

Alejandro Bocanegra Cayero

Associação “Proyecto Silos. Patrimonio Industrial”. Espanha

Palavras-chave: Mecanização, Desenvolvimento, Agricultura, Silos, Património Industrial, Arquitectura.

A base de qualquer sistema económico baseia-se na produção, distribuição e consumo de bens e serviços para satisfazer as necessidades humanas. O nascimento da máquina e a sua aplicação na agricultura marcou o início de uma revolução técnica no século XX. Esta evolução foi condicionada pela situação geográfica e política em que se desenvolveu, trazendo consigo grandes mudanças sociais, culturais e económicas devido à reorganização dos processos de produção e da vida em que era produzida.

O sector do Cereal em Espanha trabalhou sob um monopólio estatal. Os preços foram objecto de intervenção, que garantia a compra pelo próprio Estado. Assim, as diferentes organizações: Nacional do Trigo (SNT), Serviço Nacional de Cereal (SNC) e do Serviço Nacional dos Productos Agricolas (SENPA) tiveram, nomeadamente, um desempenho muito forte na compra, armazenagem e venda de grão, para a criação e uso da Rede Nacional de Silos.

Estes edifícios-contentores, ou edifícios-máquina, agora a sofrer as consequências do esquecimento, foram fundamentais para alcançar o desenvolvimento estratégico esperado, além da gestão do território como da própria agricultura. A Rede Nacional de Silos foi um dos episódios mais importantes da construção pública espanhola realizada pela engenharia, e um episódio de arquitetura fascinante. Divididos de acordo com as diferenças técnicas teve 941 edifícios, dos quais 667 são silos verticais divididos em 35 tipos. Marcos na paisagem rural, “motores do desenvolvimento” nas comunidades rurais e sistema de organização territorial através da mecanização agrícola.

 

Moagens, Ferrovias e Silos no Alentejo: um projecto de inventário e valorização

Ana Cardoso de Matos*, João Soares**, Armando Quintas*, João Lopes**

*CIDEHUS- Universidade de Évora

** Departamento de Arquitectura / CHAIA – Universidade de Évora

Palavras-chave: Alentejo, Paisagem do Cereal, Moagem, Silos, Ferrovias

A partir de finais do século XIX, na sequência da valorização da produção cerealífera pelas leis proteccionistas de 1889 e 1899, bem como da “Campanha do Trigo” em 1929, verificou-se no Alentejo, um grande desenvolvimento da cultura do trigo que levou não só à alteração da paisagem regional, pelas reconversões de culturas, arroteamentos e desaparecimentos de incultos como também ao surgimento de novas estruturas industriais, como as fábricas austro-húngaras, os silos que se situavam-se normalmente junto às linhas do caminho-de-ferro.

Em quase todos os centros urbanos do Alentejo, surgiram fábricas de moagem que marcaram e muitas vezes estruturaram a organização desses mesmos centros e passaram a ser marcas que os definiam na paisagem. A par destas edificações, os imensos silos, surgidos a partir de 1930, para armazenar as crescentes produções cerealíferas, tornaram-se também eles marcas significativas da paisagem urbana e rural do Alentejo.

Importa evidenciar uma relação profunda entre hábitos alimentares colectivos, estratégias económicas e as suas implicações na arquitectura e na paisagem urbana e rural, reconhecendo uma linha de continuidade que liga, literalmente, a paisagem à “mesa”.

Pela sua importância como património industrial e pelas suas potencialidades arquitectónicas o inventário, estudo e valorização destas estruturas fazem parte de um projecto que junta historiadores e arquitectos , permitindo realizar abordagens diversificadas e pluridisciplinares que permitem ter uma melhor compreensão da forma como as edificações acima referidas e a sua articulação com as linhas férreas foram estruturantes do território. Por outro lado, o projecto debruça-se sobre as potenciais formas de preservação, refuncionalização e valorização destas estruturas.

O objectivo desta comunicação e apresentar os pressupostos e desenvolvimento deste projecto e o trabalho que tem sido realizado.

 

Alimentação saudável e sustentável, um imperativo para o futuro: contributos de actividades de um museu

Ana Dias*, Margarida César**

*Instituto de emprego e Formação Profissional de Lisboa, Portugal

**Investigadora Associada no Centre for Research in Sociocultural Psychology, University of Neuchâtel, Switzerland; Psicóloga

Palavras-chave: museus, aprendizagem não-formal, literacia científica, alimentação saudável

Vários estudos mostram que, apesar do aumento da longevidade, doenças como o cancro estão a aumentar, assim como a obesidade, devido a hábitos alimentares pouco saudáveis. Por outro lado, a temperatura do planeta está a aumentar devido à acção humana, nomeadamente devido à agricultura intensiva, uso de agro-químicos, pecuária, desflorestação e utilização de combustíveis fósseis, prevendo-se que a vida na Terra, tal como a conhecemos, seja inviável se não mudarmos rapidamente os hábitos de vida, nomeadamente a alimentação.

Tentando responder às necessidades das populações onde estão inseridos, os museus tornaram-se espaços dinâmicos e interactivos. Oferecem serviços, programas como cursos de curta duração, palestras, ou projectos com escolas, com a convicção de que as pessoas aprendem melhor se forem motivadas através de actividades sedutoras (Hooper-Greenhill, 2007). Deste modo, podem ser úteis não apenas na salvaguarda da memória, mas também na educação das comunidades envolventes, nomeadamente na promoção de acções ambientalmente sustentáveis.

No âmbito de actividades de férias no Museu Nacional de História Natural e da Ciência destinadas a crianças e adolescentes, pretendeu-se promover uma alimentação saudável, minimizando o desperdício. Estudou-se este programa de actividades usando uma abordagem interpretativa (Denzin & Lincoln, 1998), desenvolvendo-se um estudo de caso intrínseco (Stake, 1995). Estudaram-se seis grupos de crianças/adolescentes que frequentaram uma semana destas actividades. Os instrumentos de recolha de dados foram observação (registada em diários de bordo e gravações áudio), entrevistas a crianças/adolescentes e pais, conversas informais, protocolos das crianças/adolescentes e tarefas de inspiração projectiva. O tratamento de dados foi baseado numa análise narrativa de conteúdo (Clandinin & Connelly, 1998), da qual emergem categorias indutivas de análise.

Os resultados iluminam a apropriação da importância de uma alimentação saudável e da preservação do ambiente, assim como a mudança de hábitos alimentares por parte dos participantes no programa de férias, bem como das respectivas famílias.

 

Cidades e práticas alimentares: as padarias em São Paulo, Brasil, 1900/1920.

Ana Lanna

FAUUSP

Palavras-chave:   padarias, cidade, padeiros, imigração, produção alimentar

O pão é um alimento central em praticamente todas as dietas alimentares humanas. Compreender a forma pela qual ele era produzido e consumido na cidade de Sao Paulo é forma de colocar em relação duas transformações: a da cidade e a da comida, ambas essenciais na constituição da vida moderna.

O crescimento espetacular da cidade de São Paulo significou o aparecimento de centenas de estabelecimentos de produção e serviços em sua maioria pertencentes e operados por italianos e portugueses.

Confeitarias, casas de chá e restaurantes vão configurar o espaço urbano junto com armazéns, vendas e vendedores ambulantes em multiplicidade de formas de comprar e vender, indicando a mercantilização da vida cotidiana.

O trigo, todo importado, é item essencial no preparo dos novos alimentos como as pastas e o pão branco, materializa a presença industrial na cidade com os grandes moinhos e é sinal de prosperidade pessoal e urbana.

As fontes documentais (jornais, alvarás de obras públicas, almanaques comerciais, etc) revelam que confeitarias restringiam-se à área central e mais burguesa da cidade mas padarias estavam em todos os lugares: de sobrados a porões, com ou sem cocheiras, em imóveis próprios ou alugados, podendo estar ou não associadas a grupos étnicos

As escalas do investimento e as dimensões econômicas do negócio eram extremamente variadas. As pequenas padarias abasteciam os bairros, criando uma sociabilidade de vizinhança. Ser conhecido implicava compartilhar o sistema de crédito das cadernetas.

As “Padaria e Confeitaria” participavam da construção da sofisticação do gosto alimentar assim como de diversas atividades ligadas à nova sociabilidade urbana.

A associação de padarias com armazéns e /ou depósitos de secos e molhados era bastante generalizada.

A centralidade do pão na dieta alimentar e a crescente mercantilização de seu consumo fazia com que os mecanismos da vigilância sanitária incidissem cotidianamente nos espaços das padarias, das mais simples as mais sofisticadas.

A introdução de processos mecânicos para a fabricação dos pães está associada à produção do “pão higiênico”. Toda a prática da cidade higiênica incidia sobre o fazer o pão.

A diversidade dos estabelecimentos e seus produtos, sua presença na cidade e as normas higiênicas que pretendiam organizar as atividades públicas expressam a importância das padarias na formação da cidade moderna.

 

Projeto de valorização do património industrial da moagem e do arroz de Ponte de Sor.

Ana Silva*, Carlos Faísca**

*Município de Ponte de Sôr / FLUC **Município de Ponte de Sôr / Universidade da Extremadura

Palavras-chave: museu, património industrial, moagem, arroz.

Resumo: O Município de Ponte de Sor é proprietário de um conjunto de bens de elevado interesse histórico e patrimonial, que se encontram subvalorizados em termos culturais, educativos e turísticos, com destaque para os núcleos de arqueologia industrial existentes no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor (CAC), instalado no edifício de uma fábrica de moagem de cereais e descasque de arroz construída em 1920, e para um conjunto de moinhos de água de rodízio existentes ao longo da Ribeira de Sor. Para a potencialização destes bens e de todo o património histórico que lhes está associado, dois técnicos do Município apresentaram em 2015 um projeto para a criação de um Museu Municipal da Moagem e do Arroz, cujo financiamento foi, entretanto, alvo de candidatura bem-sucedida a fundos comunitários, no âmbito do programa Alentejo 2020. A inauguração do Museu está prevista para setembro de 2017. Tratar-se-á de um museu polinucleado, tendo o núcleo central em duas salas dos antigos armazéns da fábrica e três outros núcleos satélite, abrangendo as secções de moagem de farinha em rama e de descasque de arroz da antiga fábrica, bem como um moinho de água de rodízio localizado na Zona Ribeirinha de Ponte de Sor, que é propriedade do Município. Dado o património edificado e móvel existente, o Museu centrar-se-á nas temáticas da moagem de cereais e da cultura e descasque de arroz, desenvolvidas em parte do núcleo central e nos núcleos satélite, embora inclua também uma abordagem a alguns aspetos fundamentais da história e do património do território do atual concelho de Ponte de Sor. Pretende-se que este equipamento permita conhecer e valorizar o impacto que os moinhos, a moagem e o arroz tiveram no passado desta região e, simultaneamente, que produza um segundo impacto, cultural, educativo, mas também económico, desta feita essencialmente pela via patrimonial.

 

Alimentação em tempos de cólera: os médicos perante a alimentação dos portugueses entre as primeiras vagas da epidemia de cólera.

André Pita

FCSH/NOVA

Palavras-chave: Cólera, Portugal, Século XIX, Discurso médico e Alimentação.

A crítica dos hábitos alimentares dos portugueses sempre fora uma temática favorável a discussão no campo médico. Esta crítica consistia sobretudo na falta de cuidados quer na preparação de alimentos, quer sobre os alimentos consumidos pela população. Durante as primeiras duas vagas de cólera em Portugal (1833 e 1853) uma das preocupações dos estudos médicos fora esclarecer que alimentos seriam ou não consumíveis face a esta ameaça.

O interesse dos praticantes da arte médica sobre o consumo alimentício residia tanto nos impactos que certos nutrimentos podiam ter face ao organismo e predisposição dos indivíduos, como também a facilidade com que estes alimentos poderiam propagar a enfermidade. Neste último ponto importa ainda referir os esforços levados pelas policias sanitárias e pelas comissões de saúde locais para o controlo da circulação de alimentos perecíveis ou potencialmente transmissores epidémicos, onde se inserem as frutas, carnes, cereais e algumas leguminosas.

Para esta análise socorremo-nos dos relatórios do Conselho da Saúde Pública e das teses da época em torno da cólera-mórbus. Nestes observamos não só uma recolha extensa dos principais hábitos alimentares das regiões portuguesas, como também a sua crítica. Ora por não consentirem aos avisos prestados pela comunidade médica, ora pela falta de meios para garantir uma subsistência alternativa a estas populações.

Esta comunicação insere-se ainda no contexto da nossa dissertação de mestrado em História Contemporânea, cujo objetivo será a análise da emergência e afirmação da autoridade médica face a estas epidemias de cólera.

 

O Abastecimento de água a Lisboa Oitocentista – A transformação dos hábitos higiénicos e alimentares.

Bárbara Silva Bruno

Empresa Portuguesa das Águas Livres – Museu da Água – Lisboa – Portugal

Palavras-chave: Água, Indústria, Vapor, Lisboa, Higiene.

O abastecimento de água através do sistema do Aqueduto das Águas Livres (século XVIII) trouxe consigo um grave problema: as quantidades de água calculadas previamente não correspondiam à realidade efetiva, moldando desta forma os costumes e as práticas da cidade a esta escassez. A falta de higiene com os alimentos e uma atmosfera empestada de insetos e imundices era, por outro lado, campo propício a disenterias e epidemias que irrompiam com frequência.

O surto demográfico dos finais do século XIX, associado ao desenvolvimento da industrialização, originou a alteração dos limites da cidade, levando a um constante reajustamento dos mesmos de forma a alojar a nova população que agora chegava a Lisboa. As múltiplas exigências do consumo (higiene, saneamento, incêndios) e os largos períodos de seca aceleraram o problema de falta de água na cidade quer em termos de quantidade quer em termos de qualidade.

É neste contexto, que em pleno período da Regeneração, se procurou resolver em primeiro lugar o fornecimento abundante e económico de água potável, de forma a cumprir os princípios higiénicos da época que a recomendavam como necessária para a alimentação e usos domésticos dos habitantes da cidade de Lisboa.

Em 1880, com a inauguração da Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, o abastecimento de água a toda a cidade parecia ter ficado resolvido. Como complemento desta melhoria a cidade foi ainda dotada de novos fontanários em ferro com várias bicas onde o povo bebia em condições mais higiénicas do que nos antigos chafarizes.

Embora sem muitas das questões cabalmente resolvidas, como pretendemos demonstrar através de cartas e relatos da imprensa da época, a distribuição domiciliária de água representou uma importante mudança na relação da população urbana com a água, possibilitando, entre outras, melhorias ao nível da higiene pessoal e alimentar.

 

A Configuração do Conjunto Industrial Alimentar da Manutenção Militar de Lisboa

Carla Gonçalves

Faculdade de Arquitetura de Lisboa

Palavras-chave: Industrial Alimentar, Arquitetura, Património Industrial, Reutilização, Zona oriente de Lisboa.

A Manutenção Militar de Lisboa é considerada, enquanto conjunto industrializado na área a oriente da cidade de Lisboa, um dos mais significativos e um dos mais importantes enquanto produtor de géneros alimentares para o Exército, Serviços do Estado e Serviços Civis.

O complexo industrial foi desenvolvido tendo como base o conceito de auto-suficiência (transformação, produção e produto final). A matéria-prima, base de todo este processo, era o único elemento desta cadeia que seria adquirido fora, sendo que em 1911, a sua escala e eficiência permitia-lhe a produção e acondicionamento de 30 a 40 mil refeições para militares em serviço.

O conjunto que perfaz a totalidade de 80 hectares foi realizado sobre uma estrutura edificada existente – O Convento das Carmelitas –, que se encontrava devoluto após a extinção das ordens religiosas. A localização junto ao rio, a proximidade com a linha de caminho de ferro bem como as condições espaciais do edifício e espaço exterior envolvente, que permitia a expansão da área construída, foram os factores decisores nesta escolha.

Em 1896 dá-se início às obras de adaptação do convento e à construção das unidades industriais projetadas: o processo de construção do conjunto conheceu vários momentos, acabando por ser uma obra faseada que integrou vários períodos da história, o que se verifica na presença de uma linguagem arquitectónica variada, com diferentes sistemas construtivos.

Esta comunicação tem por objetivo, a partir da disciplina da arquitetura, mapear o processo de transformação e ocupação do convento das Carmelitas e da sua envolvente, dando a conhecer a transformação gradual da área conventual em área industrial daquele que viria a ser o maior conjunto industrial de produção alimentar da época.

É também objectivo desta comunicação – e no momento em que a Manutenção Militar de Lisboa se encontra em processo de reutilização –, sensibilizar para o valor do conjunto em questão e para o diálogo de continuidade que este estabeleceu com a história.

 

Crescimento urbano e modernização do consumo: dados para uma geografia da distribuição de bens alimentares em Lisboa entre 1890 e 1910

Daniel Alves

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Comércio de retalho, bens alimentares, consumo, Lisboa, História Urbana

Nas décadas finais da Monarquia, a cidade de Lisboa experimentou um crescimento demográfico e urbano sem precedentes até à época. Este desenvolvimento teve um impacto profundo na transformação do comércio de retalho citadino que era, em grande medida, responsável pelo abastecimento alimentar de uma cidade em forte expansão. Reflexo desta realidade, Lisboa era caracterizada no início da década de 1890 como uma “cidade de tabernas e mercearias”, com milhares de pequenos negócios, na sua maioria de dimensão familiar, dedicados à venda e distribuição de bens alimentares e de primeira necessidade, como vinho, hortaliças, carne, pão e outros géneros alimentícios. Mas começavam a fazer o seu caminho os estabelecimentos que levavam ao freguês e à “sua mesa” alimentos já transformados, fruto das inovações industriais e comerciais que aos poucos iam transformando o mercado de abastecimento urbano na viragem do século. Estas mudanças, igualmente visíveis noutras cidades europeias, nomeadamente, num conjunto de cidades ibéricas com as quais Lisboa tinha afinidades urbanas e demográficas, podem ser um bom indicador para as alterações que se estavam a fazer nos hábitos de consumo das populações urbanas. Através de uma análise pormenorizada de mais de 50 mil licenças de comércio e indústria na cidade, entre 1890 e 1910, registadas nos serviços da Câmara Municipal de Lisboa, é possível caracterizar essa distribuição alimentar, a sua evolução e o grau de modernização que a estava a atingir. Permitem ainda estudar os hábitos de consumo dos lisboetas, pois a diversidade e geografia do comércio de retalho é, em grande medida, um reflexo dessa crescente procura, desse crescente consumismo que caracterizou a Europa no período anterior à Primeira Guerra Mundial. A análise de todos estes dados foi realizada através de um sistema de informação geográfica.

 

O Ecomuseu de Barroso: – Identidade e Território

David Varela Teixeira

Vice-presidente da Câmara Municipal de Montalegre

Palavras – chave: Ecomuseu, Barroso, Identidade, Valorização, Património

Um “Ecomuseu” combina o tempo, o espaço e o contexto social, ou seja, tem que ter obrigatoriamente por base um território determinado, no qual vive uma população com uma identidade própria, caso contrário, não conseguirá subsistir.

O ecomuseu é um fio condutor da História, subscrita por um espaço físico definido, em que as populações que dele fazem parte são os seus principais protagonistas. De facto, trata-se de um museu que se dirige em primeiro lugar à comunidade local, para que ela se reconheça, para que reanime a sua vida no conhecimento das suas raízes, perpetuando assim, o legado deixado pelos seus antepassados, a sua identidade.

A possibilidade de gestão local do ecomuseu, permite-lhe trabalhar a sua própria imagem de identidade cultural e social, aproximando-a o mais possível das populações e do saber fazer artesanal, salvaguardando e valorizando os recursos naturais e culturais, dando um novo uso social e didático a esse património.

O Ecomuseu de Barroso pretende afirmar-se como espaço de valorização e divulgação dos recursos e do património do Barroso, de representação identitária, de formação, de participação e cidadania, de concertação e de cooperação e, de inovação e mobilização das pessoas para novas atividades.

Para além do efeito mobilizador interno, o Ecomuseu do Barroso assume-se como espaço de ligação desta comunidade com o exterior, privilegiando atitudes e iniciativas de cooperação e de parceria com outros museus e outros territórios. Este projeto terá sempre presente a promoção turística da região como atividade geradora de riqueza.

A filosofia do Ecomuseu de Barroso é a valorização do património “in sito” em toda a extensão, sempre que isso seja possível, propondo a criação de vários pólos museológicos, com uma ligação permanente ao Núcleo Sede, representando a identidade mais específica da área em que está inserido.

“O museu procura fazer descobrir o património de um território aos seus habitantes e aos seus visitantes. Diversifica a oferta cultural…”

 

As consequências da crise dos abastecimentos em Setúbal durante a Grande Guerra: a erupção do «vulcão» operário

Diogo Ferreira

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Setúbal, Grande Guerra, Crise de Subsistências, Assaltos Colectivos

As dificuldades nos abastecimentos e a crise de subsistências foram dois dos mais graves problemas que a República enfrentou durante a Grande Guerra em virtude, principalmente, de um insuficiente sector agrário e da profunda dependência da marinha mercante britânica, fundamental para o transporte de mercadorias. Setúbal, terceiro maior centro industrial e demográfico em 1911, foi das cidades que mais sofreu com as barreiras proporcionadas pela crise de acesso aos géneros de primeira necessidade uma vez que era fortemente dependente do exterior.

Nesta comunicação proponho-me a apresentar, por um lado, os efeitos nefastos da «questão das subsistências» num mundo operário que, efectivamente, passou por graves momentos de fome, já que a cidade não foi abastecida de farinha ou cereais em várias ocasiões, e, por outro, de revelar um conjunto diversificado de medidas da Câmara Municipal. No primeiro caso demonstra-se como os principais produtos alimentícios foram alvo de uma escalada nos preços, dobrando ou triplicando o seu valor, justificando os motivos para que o contrabando, a especulação, o mercado negro e o açambarcamento tenham caracterizado o quotidiano setubalense, principalmente nos anos de 1917 e 1918. É desta forma que se encontram as razões para que tenham ocorrido dezenas de greves e de assaltos colectivos a estabelecimentos comerciais e a quintas, aumentando o número de réus condenados de 48 (1913) para 509 (1919).

Num segundo momento revela-se a incapacidade da edilidade para responder à crise, podendo-se destacar os constantes apelos para que a cidade fosse abastecida, a composição de uma comissão de subsistências com interesses próprios, a utilização de um empréstimo bancário, a criação de dois mercados municipais ou a abertura de uma padaria. Se para o administrador do concelho da «União Sagrada», José Bernardo Ferreira, “Setúbal é um vulcão de movimentos operários”, a fome fez com que a cidade entrasse em erupção.

 

Tem a Agricultura Biológica Futuro?

Fernando Reboredo, Mª Fernanda Pessoa, Fernando Lidon

GeoBioTec, Departamento de Ciências da Terra, FCT/NOVA

Palavras-chave: agricultura biológica; agricultura convencional; sustentabilidade

A publicação do Relatório Brundtland em 1987 pelas Nações Unidas onde se consagrou, pela primeira vez, o conceito de Desenvolvimento Sustentável conduziu, ainda que de forma tímida, que as sociedades implementassem práticas sustentáveis nas diversas áreas de actuação.

A agricultura convencional (AC) tem ao longo de décadas, conseguido aumentar a produtividade baseada na melhoria das práticas agrícolas, no melhoramento genético (híbridos, super-híbridos), e na selecção criteriosa das variedades a utilizar, na aplicação de fertilizantes, herbicidas, e outros fitofármacos, para além da mecanização crescente e do elevado consumo de água, um bem cada vez mais escasso em muitas zonas do globo.

A aplicação de fertilizantes e fitofármacos em larga escala, têm sido responsáveis por efeitos nefastos na biodiversidade com consequências que em muitos casos têm atingido os seres humanos. Por outro lado, más práticas agrícolas têm conduzido à perda da capacidade produtiva de muitos solos acelerando assim a desertificação.

A afirmação da agricultura biológica (AB) à escala global tem sido uma realidade, pese embora as críticas centradas no aumento da desflorestação e consequente perda de biodiversidade, como consequência do aumento de área para produzir o mesmo rendimento por hectare, comparativamente à AC, ignorando liminarmente o aumento do emprego no meio rural e a diminuição brutal do input energético necessário.

Saliente-se que a AB não é uma inovação recente – tem uma história de quase um século quando Rudolph Steiner se insurgiu com o rumo que a AC (industrial) estava a tomar, tendo fundado em 1924, aquilo que se designou por Agricultura Biodinâmica.

Em conclusão, uma (AC) não exclui a outra (AB), e a coexistência pacífica não só é possível, como desejável. Cabe ao consumidor a palavra (escolha) decisiva, e de acordo com os últimos dados publicados em 2016, as vendas globais a retalho da agricultura biológica em 2014 atingiram $80 biliões (em 1999 perfaziam cerca de $15 biliões), sendo expectável que continuem em crescimento. Por outras palavras, parece-nos risonho o futuro da AB pese embora a vigilância sempre necessária para que se cumprem os requisitos em que ela se baseia.

 

«Entre Latas»: indústria conserveira figueirense

Guida Cândido

Divisão da Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz

Palavras-chave: Conservas, Figueira da Foz, História da Alimentação, Pescado

A indústria conserveira na Figueira da Foz assiste às primeiras atividades entre 1875 e 1890. A empresa de Joaquim Pestana e Silva, para além de legumes e fruta, inicia, em 1878, conservas de peixe em salmoura e marisco para exportação. Juntando-se a João José da Silva Costa, a empresa Costa & Silva labora até 1881. Com características semelhantes, opera comércio de conservas de pescada e tainha em escabeche a firma Carvalho & C.ª, enviando os seus produtos para o Brasil. Remonta também ao final da centúria de oitocentos e mantendo atividade ainda em 1915, a pequena fábrica de Inácio Augusto Lopes com oito variedades de peixe enlatado.

A laborar desde 1899 e com a direção de um cozinheiro com profunda experiência, a firma Ribeiro & Águas, obriga ao emprego de dezoito a vinte pessoas, na maioria mulheres e crianças e produz, em dez horas de trabalho, cerca de 12 mil latas de conservas. Já na preparação do peixe, implica o trabalho diário de dez homens e oitenta mulheres.

Resultam deste trabalho as conservas de sardinha La Sultane, La merveilleuse e Sardinhas Gaúcho e, ainda, ervilhas que se destinam à exportação para o Brasil e colónias africanas. Em Buarcos, em 1918, inaugura-se a fábrica de sardinha em salmoura «Monumento». No final da década de 40 do século XX, o seu proprietário mantém na Ericeira uma empresa com características similares à de Buarcos. Das quatro fábricas a laborar em Buarcos, neste período, destaca-se ainda a «Flor de Maio» que tem, nos mercados da Grécia, Itália e Bélgica um grande consumo.

A indústria conserveira viu dias de glória, atravessou momentos de desalento e recuperou agora, em pleno século XXI algum vigor, encontrando-se em expansão com duas empresas representativas das novas ambições comerciais: a Briosa e a Cofisa.

 

“Um dos mais valiosos serviços prestados ao exército” – A fundação da Manutenção Militar de Lisboa (1886-1897)

Inês José

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Indústria alimentar, ciência e alimentação, património industrial, Exército, Manutenção Militar

Fundada em 1897, a Manutenção Militar de Lisboa foi um complexo fabril do Exército Português, destinado à produção de bens alimentares para abastecimento dos militares. O organismo, que viria a ocupar o extinto convento das Carmelitas, no Beato, começando pela moagem do trigo e fabrico do pão, conheceria, até ao final da década de 1930, alterações na sua estrutura e acção industrial, com a diversificação da sua produção, passando a acolher também unidades para o fabrico de bolacha, de conservas e de café, bem como instalações para refinação de açúcar e descasque de arroz, entre outros serviços, características que o colocariam “entre as fábricas de moagem mais prósperas e desenvolvidas do País”(1).

Desejando-se uniformizar e garantir a qualidade do “alimento do soldado”, e atendendo às transformações operadas ao nível dos processos de fabrico e dos desenvolvimentos científicos e industriais que se verificaram na viragem para o século XX, procurava-se que a Manutenção Militar viesse a assegurar as necessidades de auto-suficiência do Exército, tendo como referência os estabelecimentos congéneres europeus.

Esta comunicação visa abordar, do ponto de vista histórico, o processo de criação deste estabelecimento centenário, dando a conhecer as motivações que estiveram na sua origem, bem como os saberes que viabilizaram a sua edificação. Procura, simultaneamente, sensibilizar para a necessidade de se conservar e valorizar a memória e o património imóvel deste inegável reduto do património industrial contemporâneo português, numa altura em que se debate o destino a dar às instalações da Manutenção Militar.

(1) Vide: Ana Paula Pires, A indústria de moagem de cereais: sua organização e reflexos políticos do seu desenvolvimento durante a I Republica (1899-1929), Lisboa, Tese de Mestrado apresentada à FCSH-UNL, 2004, p.164

 

O sector industrial no Portugal Contemporâneo – A Indústria da Panificação em Lisboa (1933-1950)

Joana Isabel Santos

FCSH/NOVA

Palavras-chave: Indústria, panificação, corporativismo, economia, condicionamento, Lisboa.

Entre 1933 e 1950 assiste-se a uma evolução progressiva da importância do sector industrial para o desenvolvimento económico de Portugal.

O corporativismo, um dos pilares do período do Estado Novo, embora não tenha sido tão acentuado na indústria como foi no sector cerealífero, ajuda-nos a perceber as modificações e o processo pelo qual a indústria atravessou ao longo dos anos. Por outro lado, o condicionamento industrial foi uma questão que moldou e condicionou a indústria portuguesa do século XX, nomeadamente a indústria da panificação.

A partir dos anos 30, a indústria da panificação em Lisboa começou a dar sinais ténues de desenvolvimento, ainda que condicionado, pela política do regime político vigente. Contudo, este crescimento foi interrompido pela II Guerra Mundial (1939-1945). O seu impacto na indústria da panificação, designadamente, no racionamento do pão, elemento essencial e imprescindível da alimentação, foi bastante visível na cidade de Lisboa.

Ainda assim, as heranças deixadas pela II Guerra Mundial beneficiaram, em certo sentido, a indústria da panificação.

No pós-guerra, a partir da década de 50, constata-se uma nova etapa neste sector industrial. Um novo desenvolvimento, com um condicionamento mais aberto, que foi muito gratificante e positivo, não só para a indústria portuguesa, como para a sociedade lisboeta.

Os novos ventos de mudança na indústria da panificação começaram na década de 50, com a chamada Panificação Moderna: acentua-se a preocupação de diversificar e de desenvolver novos processos de confecção (em termos práticos), através da incorporação de novos produtos, como o leite, a margarina, a manteiga, o açúcar, o malte e/ou farinha de malte no pão.

A panificação moderna enriqueceu o país, nomeadamente a cidade de Lisboa, através da sua diversidade de pães, tendo contribuído para uma melhor alimentação dos portugueses, principalmente, logo após a II Guerra Mundial.

 

Os bens alimentares no comércio local: um estudo de caso – o negócio de Francisco João Beato (1960-1980)

Joana Ribeiro

FCSH/NOVA

Palavras-chave – Oeste de Portugal, Reguengo da Parada, Comércio local, Francisco João Beato”.

Esta comunicação irá explorar parte do património constituído em torno do “negócio” de Francisco João Beato (1929-2016), este prolongou-se entre 1966 e 2016, sofrendo algumas alterações ao longo dos anos, mas fixando-se essencialmente no comércio de farinhas, adubos, rações, frutas… Se por um lado, participava no abastecimento de uma comunidade, por outro, os bens comercializados neste(s) estabelecimento(s) estavam também relacionados com a produção de bens alimentares.

Esta comunicação permitir-nos-á conhecer melhor uma tipologia de comércio (os bens comercializados, as práticas que lhe estão associadas, os fornecedores, a clientela…), assim como a comunidade que ao mesmo está afecta. Esta comunidade está claramente representada neste património (maioritariamente documental) e com o apoio de algumas “ferramentas” como memórias, história oral e história local conseguimos chegar a variadas informações sobre o abastecimento e a produção de bens alimentares no contexto da pequena aldeia chamada Reguengo da Parada no concelho de Caldas da Rainha.

Alguns dos aspetos mais interessantes deste estudo de caso que serão analisados nesta comunicação são: o facto de nos permitir conhecer várias empresas da região e de que empresas nacionais eram representantes, ou seja, de que forma um pequeno “negócio” local se entrelaçava com o comércio nacional; de que forma este comerciante e a sua família não deixavam as tarefas agrícolas ou transformadoras para outros, sendo eles próprios produtores. Ou mesmo, o papel deste comerciante no incremento da produção agrícola local, uma vez que, uma boa parte dos bens comercializados eram adquiridos junto dos produtores locais.

 

Entre cerealicultores e moageiros: as percepções de Veríssimo d’ Almeida sobre a crise cerealífera portuguesa (1878-1902)

João de Almeida Barata

FLUL

Palavras-chave: José Veríssimo d’Almeida; Crise Cerealífera; Agronomia; Século XIX; Portugal

O objecto do presente trabalho consiste na análise das leituras formuladas por José Veríssimo d’Almeida [1834-1915], professor catedrático do Instituto Agrícola, na imprensa agronómica, entre o final dos anos 70 do século XIX e a primeira década de Novecentos, sobre o conflito de interesses travado entre a moagem e a cerealicultura.

Procurar-se-á compreender qual o enquadramento teórico concebido pelo Autor nesta questão, bem como a avaliação do Agrónomo sobre o movimento dos preços do trigo, farinha e pão. Não menos relevante, pretende-se conhecer as soluções apresentadas para a resolução deste problema central na sociedade portuguesa, na segunda metade de Oitocentos, sem esquecer a contextualização respectiva.

Importa-nos ainda atender à posição exercida por Veríssimo d’Almeida no contexto da ciência agronómica em Portugal e na imprensa periódica da especialidade, na qual publicou crónicas, entre 1878 e 1902, assim como diversos artigos de opinião. Republicano, livre-cambista e defensor da transformação económica pela difusão da ciência e pela promoção do associativismo agrícola, o Agrónomo destacou-se pelo ideário discordante das soluções protecionistas, às quais contrapunha um modelo diferente, objecto de estudo no presente trabalho.

 

A agronomia como defesa contra a fome no ideário de António Câmara

João Joaquim

FCSH/NOVA

Palavras-chave: ciências agrárias, autarcia alimentar, Estação Agronómica Nacional, industrialização, FAO

Pretendemos com esta apresentação explorar o modo como António Câmara (1901-1971), primeiro director da Estação Agronómica Nacional, pensou o “perigo da fome” no âmbito do “problema demográfico”, uma questão de profunda relevância para a compreensão das políticas agrárias desenvolvidas em Portugal durante as primeiras décadas do século XX, fomentadas especialmente por um grupo de pensadores “neo-fisiocráticos”, hipótese levantada por Fernando Rosas; para estes a fome constituía um problema não só material como também social a que importava dar resposta.

De modo a melhor compreender as posições de Câmara, abarcaremos a evolução da sua carreira desde o seu início nas “campanhas de produção agrícola” entre finais da década de 1920 e inícios da década seguinte, entre as quais se conta a conhecida Campanha do Trigo, tema já abordado por Tiago Saraiva. O período da Segunda Guerra Mundial levará à reafirmação, por parte de Câmara, da importância da agricultura, e portanto da agronomia, para a reconstrução de um continente dilacerado pelo conflito. A agricultura é entendida por Câmara também de um ponto de vista espiritual, caracterizando-se o seu pensamento por um “neo-ruralismo” que vê a moral campesina como moderadora da crescente industrialização.

A fome impunha-se para Câmara como um factor desestabilizador da política internacional a que apenas a acção concertada dos cientistas agrários poderia dar resposta, sendo de destacar, já no Pós-Guerra e no âmbito da reestruturação do ambiente político internacional, a importância que atribui à Food and Agriculture Organization (FAO); instituição à qual estará ligado desde cedo e no seio da qual chega a representar Portugal.

Apesar de existirem algumas fontes materiais que auxiliam a compreensão das premissas deste trabalho, optou-se por baseá-lo na análise de fontes primárias documentais, na sua maioria publicadas, da autoria do próprio Câmara, sendo o seu pensamento enquadrado, através do recurso a bibliografia secundária,  no seio do meio científico, político e social no qual este se movimentava.

 

As conservas de peixe do Algarve à mesa e nos campos de batalha (1865 – 1945)

Joaquim Rodrigues

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Conservas de peixe, Algarve, Exportação, Condicionamento industrial, Cartelização

A indústria de conservas de peixe foi durante muitas décadas das mais importantes do país. Com capitais nacionais e estrangeiros a indústria de conservas cresceu rapidamente. A Primeira Guerra Mundial foi o momento do seu take-off (1914-1924). Dependente essencialmente dos mercados externos a indústria sofreu o impacto de crises.

É no contexto de algumas dificuldades que atravessou a indústria conserveira que, em Novembro de 1931, Salazar, visitaria os centros conserveiros do Algarve.

A crise de alguns sectores económicos do país, como as conservas, e a construção de um novo tipo de Estado, perante a falência dos sistemas demoliberais conduziria à intervenção do Estado Novo, plasmado no corporativismo (Grémios e Sindicatos Nacionais). Dar-se-á a cartelização autoritária da indústria conserveira.

Desejamos igualmente sublinhar a introdução do condicionamento industrial (1927 a 1931 e 1937).

A Segunda Guerra Mundial foi um dos períodos mais faustos para a indústria conserveira, não pela quantidade exportada, mas pelos valores alcançados. Os centros algarvios foram fortemente atingido pela falta de peixe, pelas dificuldades na aquisição de folha-de-flandres e nos transportes. As conservas de peixe – e o volfrâmio – estiveram no centro de uma guerra económica que teve como protagonistas, para além de Portugal, a Inglaterra e a Alemanha de Hitler. Os centros do Algarve tiveram uma quota destacada na exportação de todas as espécies de conservas de peixe quer para a Inglaterra, quer para a Alemanha. Para ambos os produtos o «ouro nazi», produto do espólio confiscado aos judeus nos campos de concentração/extermínio, serviria para os pagar. Durante a IIGM, conserveiros e os volframistas arrecadaram avultados lucros.

Após o fausto, a decadência. Do imponente parque industrial conserveiro – muitas dezenas de fábricas e milhares de operárias/os – pouco ou nada resta.

 

Da calda ao concentrado – Cultura intensiva e produção industrial do tomate em Portugal (1940-1970)

Jorge Fernandes Alves

CITCEM/FLUP

Palavras-chave: Tomate, regadio, agricultura intensiva, indústria alimentar, exportação.

A partir da década de 1940, a produção de concentrado de tomate merece ganhou um relevo significativo na economia, suscitando um cultivo organizado e o encaminhamento da produção para a indústria a qual atingiu indicadores nacionais muito significativos na produção e exportação, num percurso ascendente, a partir de uma situação praticamente inexistente. Com efeito, a cultura do tomate e a indústria de concentrados constituem um caso raro em Portugal: cultura essencialmente hortícola, embora com alguma implantação extensiva no Ribatejo, ganhou qualidade e dimensão industrial no espaço de pouco mais de uma década, entre 1950/1960, mercê da ação concertada de alguns empresários e de organismos oficiais (caso da Junta Nacional da Fruta), que, no âmbito dos modelos corporativos então vigentes, encontraram oportunidades no mercado internacional. Para as zonas de regadio, como no Vale do Sorraia, antes limitadas ao arroz, o tomate revelou-se uma cultura de grande rendibilidade e, por isso, conquistou um espaço agrícola crescente, falando os agricultores locais mais animados em “revolução do tomate”. Naturalmente não faltaram os problemas sociais desta corrida à cultura do tomate.

A comunicação procura caraterizar o ponto de partida, reconhecer os estímulos à cultura e à produção industrial na conjuntura, evidenciar alguns indicadores económicos relevantes, bem como identificar o papel da Junta Nacional das Frutas neste contexto, para explicar a passagem à cultura intensiva nos campos do Ribatejo e à instalação de várias unidades industriais. Perante as melhorias consideráveis na qualidade e na apresentação, a exportação de concentrado de tomate cresce, ganhando uma penetração considerável no mercado externo, atingindo-se novos mercados, casos da Noruega ou dos Estados Unidos, a ponto de algumas multinacionais

 

A pesca da Sardinha em Peniche: 1900-1950

Jorge Russo

CINAV – Centro de Investigação Naval, Marinha Portuguesa & IHC – FCSH/NOVA

Palavras-chave: Pescada, Traineira, Peniche, Cerco, Sardinha

Durante a primeira metade do século XX a pesca da sardinha observou transformações profundas que moldaram o que é hoje. Estas, verificaram-se predominantemente ao nível das introduções de novas artes de pesca, que representaram “transferências tecnológicas”, uma delas, exógena ao território nacional.

Em 1890, a introdução de uma nova armação da sardinha, do tipo à valenciana, implicaria a extinção das do tipo redondo. As armações à valenciana, de maior dimensão, mais resistentes, pescando mais meses do ano, incrementaram logo na primeira década do século XX, o produto da pesca da sardinha. Em 1913, nova introdução, as traineiras, redes de cercar para bordo provenientes de Vigo, trouxeram outra tecnologia e o produto obtido com a sardinha aumentou significativamente. A motorização destas embarcações, catapultou a captura da sardinha para totais nunca antes atingidos, e, provocou a extinção paulatina das armações à valenciana e do sistema fixo por armações em Peniche. O incremento do número de traineiras foi uma constante, e esse aumento ditou o das capturas, até à crise da sardinha das décadas de 30 e 40. Apenas o recurso à captura de outros pelágicos permitiu que o produto gerado pelas traineiras não só não diminuísse, como registasse uma subida.

Por fim, a motorização ficou completa, o remo e a vela desapareceram da pesca da sardinha, assim como as artes fixas, pescando-se sardinha em 1950 exclusivamente através das artes móveis de cercar para bordo, as traineiras, como hoje!

 

Are consumers ready to distinguish sustainable salts from others?

Katia Hueso

IPAISAL

The food-grade salt market has experienced a dramatic change in the past decades, thanks to the uprising of high quality artisanal salts, as opposed to the uniform industrial salts produced worldwide that used to dominate the scene. The recovery of the hand-harvested sel gris of Guérande in France during the second half of the 20th century has become the epitome of the recognition of artisanal salt as a healthier and more valuable culinary salt. Thanks to the combination of socioeconomic success and conservation of heritage and landscape, the example of Guérande is now followed by many traditional solar evaporation salinas, which see an opportunity to recover their activity via the production of more expensive salts. Industrial salinas have also joined this trend, offering their own gourmet creations at higher prices, thereby increasing their revenues, but not always with the necessary care for natural and cultural heritage. Also, modern artisanal salt making facilities are being created all over the world, taking advantage of this growing interest in culinary salts. Hence, the relation of high quality salts and the conservation of heritage and a livelihood for salt making communities is no longer straightforward. Customers buying these salts are not always aware of these implications, as labels are not clear enough. Care should be taken to adequately inform consumers, so that they can make informed choices, and, if they decide so, support the conservation of salt heritage and saltscapes.

 

Produzir, abastecer e alimentar: a actividade da Junta Nacional das Frutas durante a Segunda Guerra Mundial

Leonardo Aboim Pires

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Estado Novo; Segunda Guerra Mundial; Economia de Guerra; Subsistências.

Não obstante a neutralidade advogada pelo governo de Oliveira Salazar, Portugal sofreu as consequências da Segunda Guerra Mundial, que realçaram “os limites ao progresso e à independência nacional impostos pelo carácter pouco industrializado e predominantemente agrícola da economia portuguesa” (Rollo 2007: 83). As limitações da economia deste período repercutiram-se a diversos níveis, onde o consumo alimentar assumiu contornos de forte carência.

À crónica insuficiência frumentária foram-se somando dificuldades no abastecimento de diversos produtos e artigos, agudizando os impactos do conflito no quotidiano da população portuguesa. Deste modo, os diversos organismos de coordenação económica, criados no início do Estado Novo, estabeleceram medidas e praticaram políticas que visassem criar condições para o abastecimento alimentar, bem como mitigar os efeitos adversos da conjuntura de conflito armado que se vivia. Para gerir esta situação, o governo criou, em 1943, a Intendência-Geral dos Abastecimentos que teve de estabelecer contactos com os organismos de coordenação económica, embora estes últimos continuassem a sua acção de fiscalização sobre os diversos sectores produtivos do tecido económico nacional.

Assim, esta comunicação, visa compreender os diversos níveis de actuação de um dos organismos de coordenação económica – a Junta Nacional das Frutas (JNF) – durante o período da Segunda Guerra Mundial. Para tal, será feita a análise das limitações impostas às exportações do sector fruto-hortícola e dos efeitos do controlo sobre o mercado interno, sobretudo no consumo de batata e de alfarroba. Mas também será foco de análise a relação da JNF com a Intendência-Geral dos Abastecimentos, bem como o seu papel na política de resolução da “questão das subsistências”, protagonizada por Daniel Barbosa, entre 1947 e 1948.

 

«Sob o signo da «Memória Alimentar» da I Guerra Mundial: alguns hábitos dos combatentes portugueses»

Margarida Portela

IHC-FCSH/NOVA

Palavras-chave: Grande Guerra, Memória Alimentar, História Militar

Os eventos históricos encerram em si uma «Memória Alimentar». Assim sucede com as guerras, as quais nunca escondem crises de subsistência diversas ou problemas de abastecimento, que afectam a vida das nações envolvidas e dos seus civis. E, acompanhando estes conflitos, entre os seus combatentes, existem igualmente rituais alimentares diversos, com hábitos transportados pelos soldados para as zonas de combate, ou contactos com novos produtos e alimentos, provocadores de satisfação ou repulsa nos paladares e estômagos dos militares em campanha.

Portugal esteve presente na IGM. Da mesma podemos dizer existir uma «Memória Alimentar», que transportou até nós um rico legado de pormenores alimentares, relacionados por exemplo com as carências vividas pelos combatentes portugueses em África, ou com a aversão do soldado nacional ao britânico corned beef, fornecido nas rações inglesas na Frente Ocidental.

Sob o signo desta «Memória Alimentar» Portuguesa da IGM, com foco na vida diária e nos hábitos dos seus combatentes, recai a proposta desta comunicação, onde analisaremos brevemente alguns problemas alimentares existentes em África, fazendo igualmente um levantamento das questões relativas à presença portuguesa em França – onde os «Pork and Cheese», alcunha alimentar com que os Britânicos nos laurearam, desdenharam tantas vezes os conselhos nutricionais dos seus Aliados.

A par das tentativas de fuga à realidade alimentar ou dos problemas de subsistência | fornecimento, mencionar-se-ão, ainda que brevemente, pormenores que as memórias ressalvam, sobre as diferenças de alimentação entre “frente de combate” e “retaguarda”, tanto em África quanto em França, pois, longe das zonas quentes de combate, se referia que as altas patentes acediam a alimentos de qualidade – o que sempre provocou a ira dos seus compatriotas, menos graduados, numa memória “amarga” deste mesmo conflito.

 

Panorama e tipologias dos equipamentos culturais associados ao sector agro-alimentar

Maria da Luz Sampaio

CIDEHUS – Universidade de Évora

Palavras-chave: tipologias, museus, agroalimentar, equipamentos.

Os processos de industrialização romperam com “o modelo fechado da sociedade campesina instaurando uma economia quantificada, de numerário  e de mercado”.  (OLIVEIRA et al, 1983). Como consequência assistimos ao abandono de moinhos de água e vento, engenhos e lagares de azeite… Mais tarde, nas décadas de 1980 e 90, os processos de desindustrialização e deslocalização da indústria, tornaram inativas ou abandonadas as indústrias de moagem, de descasque de arroz, as prensas hidráulicas de azeite… As necessidades de requalificação e regeneração urbana destes espaços e seus territórios propiciaram a sua transformação em museus ou centro de artes e cultura.

Na procura de entender estas transformações e avaliar o novo papel que desempenham analisamos alguns dos casos e verificamos que, parte destes edifícios readaptaram-se a novas funções e inscrevem-se em três tipologias distintas: museus e centros interpretativos; ecomuseus e parques naturais; projectos turísticos de carácter público ou privado. Na sua maioria, estes edifícios receberam acções de conservação e musealização, mas nem todos consolidaram a sua categoria de equipamentos culturais e turísticos abertos ao público regularmente, aguardando, ainda investimentos específicos, assim como o aprofundamento do conhecimento histórico que possuímos deles, ou ainda a consolidação das suas estruturas e programas.

Estes edifícios são recursos ao serviço das regiões, e por pertencerem ao sector alimentar tiveram um impacto revelante, mensurável não só pelos índices de produção e de empregabilidade, mas também por terem impulsionado um conjunto de actividades como a panificação, a saboaria, a pecuária, entre outras. Hoje, transformados em equipamentos culturais e turísticos estes edifícios permitiram ações de requalificação das regiões onde estão inseridos, asseguram novas funções e transmitem história, inovação e tecnologia.

Neste quadro importa conhecer de perto alguns dos casos e realizar uma avaliação do caminho percorrido, bem como apontar novos contributos para o seu crescimento enquanto produto cultural, educativo e turístico.

 

Da carestia de vida ao contrabando: O impacto económico da Primeira Guerra Mundial no concelho de Elvas

Mariana Castro

IHC-FSCH/NOVA

Palavras-chave: Carestia de vida, Contrabando, Elvas, Primeira Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial teve impacto em diversos países, nomeadamente em Portugal. O concelho de Elvas, localizado no distrito de Portalegre, não escapou às severas dificuldades provocadas pela escassez de bens de primeira necessidade (como por exemplo, o pão, as carnes, o açúcar, entre outros), especulação, subida dos preços e à pobreza das classes mais desfavorecidas a favor dos que aproveitavam o contexto de guerra para vender as mercadorias a preços altos, como os contrabandistas que exportavam ou importavam ilegalmente, fugindo aos direitos alfandegários.

Deste modo, esta comunicação é dedicada ao estudo do impacto económico da Primeira Guerra Mundial no concelho de Elvas, desde a subida dos preços dos géneros de primeira necessidade à prática do contrabando.

Na primeira parte começa por apresentar a metodologia utilizada ao longo da investigação, tendo em consideração a análise da correspondência trocada pelos elementos do poder local elvense e os registos da Companhia da Guarda Fiscal de Elvas e da Secção de Caia. Pretende-se ainda perceber quais foram as preocupações, debates e medidas implementadas, pelos elementos constituintes da Câmara Municipal de Elvas, Câmara Distrital de Subsistências, administrador do concelho e governador civil do distrito de Portalegre, para combater as consequências provocadas pela guerra.

A segunda parte da comunicação procurar-se-á entender, a partir da análise do fenómeno no concelho de Elvas, a expressão do contrabando e o papel/intervenção da Guarda Fiscal, como entidade responsável pelo controle e repressão de qualquer acto de comércio ilícito, assim como compreender até que medida os republicanos conseguiram alcançar o sucesso ou o falhanço no que diz respeito à sua extensão e actuação.

 

O abastecimento alimentar como motor da forma urbana: o caso da paisagem alimentar de Lisboa

Mariana Sanchez Salvador

DINÂMIA’CET-IUL

Palavras-chave: Sistema Alimentar Urbano, Paisagem Alimentar, Forma Urbana, Cidades Sustentáveis, Lisboa.

Se considerarmos cada etapa que compõe o Sistema Alimentar — produção, processamento, distribuição, comercialização, preparação, consumo, gestão de resíduos — podemos reconhecer como cada uma transforma o espaço e se materializa em diferentes elementos da Forma Urbana. A Produção molda os nossos campos e paisagens, a Distribuição desenha os caminhos, estradas e ruas, a Comercialização conforma espaços públicos ou tem lugar em edifícios desenhados para o efeito, a Preparação e Consumo organizam o espaço doméstico. Em cada momento, o abastecimento alimentar conforma a Paisagem Alimentar das cidades.

Desde o final do século XIX e início do século XX, e até à actualidade, os Sistemas Alimentares urbanos sofreram, talvez, as maiores transformações de que há memória: inovações técnicas na conservação, transformação e processamento, introdução de novos produtos e culturas alimentares, desenvolvimento de electrodomésticos que alteraram as práticas de consumo, a transição de Bacias Alimentares locais para redes complexas de distribuição globais. Todas essas alterações transformam a relação das cidades com os seus fluxos de abastecimento alimentar e traduziram-se no espaço, através da sua forma urbana, influenciando a localização e distribuição de cada uma das etapas do Sistema Alimentar no contexto urbano. Nesta comunicação, será abordado, como exemplo, o caso da transformação ocorrida na Paisagem Alimentar da cidade de Lisboa, comparando a realidade do início do século XX com a actual, recorrendo à cartografia e a registos fotográficos.

Num mundo com uma população crescente, e progressivamente mais urbanizada, as cidades virão a desempenhar um papel cada vez mais decisivo no abastecimento e segurança alimentar dos seus habitantes. Importará, então, compreender como esta relação evoluiu durante o último século, para fundamentar respostas futuras que concorram para um modelo de cidade mais sustentável e resiliente.

 

Lagar de varas do fojo, saber fazer azeite

Marisa Bacalhau

Câmara Municipal de Moura

Palavras-chave: Azeite, Museu, Preservação, Moura, Produção.

A temática da produção de azeite está ligada a Moura de uma forma que lhe é inevitavelmente indissociável. Aí podemos ainda encontrar um lagar que mantém toda a maquinaria original que conserva desde o século XIX, a mesma inspirada pelos romanos e aplicada à produção de azeite e vinho, com o sistema de varas. Importante marca para a identidade do Concelho de Moura, este espaço, disponibilizado ao púbico pela Câmara Municipal de Moura no ano 2000, perpetuou a forma árdua, do saber fazer azeite, tornando-se um espaço de visita essencial para compreender a forma de extracção tradicional do precioso líquido. Trata-se de um tema que desperta a atenção de um público muito diversificado, especialistas ou leigos, numa panóplia de nacionalidades também ela muito variada. A importância deste espaço para a autarquia faz com que desde a sua abertura ao público o edifício tenha sido alvo das mais variadas intervenções, a última delas levou à substituição de toda a cobertura, com o intuito de preservar este imóvel único para as gerações vindouras.

 

Lo recolectado, ahumado y secado. Un entramado de rutas simbólicas en los mercados de Iquique y Talcahuano, Chile
Maximiliano Soto

Profesor de antropología y sociología Departamento de sociología Universidad de Valparaíso

El acto de comer involucra prácticas y formas de transformación e alimentos que contienen una serie de pasajes que van de lo natural a lo cultura, de lo salvaje a lo domesticado. Un proceso que se puede ilustrar a través del método de historia de vida que desde el relato/recorrido de informantes claves accedemos a la práctica de la recolección de algas, del secado y salado de carne de llamas (lhamas), y del ahumado de pescados. Tres prácticas culinarias, donde lo recolectado, ahumado y secado, expresa tres niveles de cultura en dos ciudades-puerto de Chile: Iquique y Talcahuano.
Sabemos que la cocina como proceso de transformación cultural se sitúa en un triángulo semántico en función de tres tipos de categorías : lo crudo (natural), lo cocido (lo cultural) y lo podrido (regreso a lo natural) (Lévi-Strauss. 1965). Sin embargo si aumentamos la complejidad al incorporar otros elementos en función de prácticas culturales que acompañan éstas transformaciones incluyendo sus herramientas y sus recorridos/entornos, nos encontrarnos con el recolector de orilla (Carmelo), la ahumadora (María) y el charqueador (Juvenal). Desde nuestro análisis, podemos incluir también la continuidad y/o discontinuidad que se observan desde lugares donde se inscribe lo domesticado como una casa, donde lo familiar se impone, o un Mercado, donde lo familiar se abre a lo público y simbólico.
El objetivo de esta comunicación es comprender las dinámicas sociales, culturales y simbólicas que residen en la transformación de los alimentos y en entender la distribución de éstas a modo de rutas que llegan y salen de los mercados de abastos, siguiendo una dinámica simbólica-transaccional de consumo y de conservación. Los mercados son lugares en un sentido identitario, relacional e histórico (Augé, 1992). Lugares que están al centro de un entorno de interacción, pero por sobretodo al centro del Triángulo culinario en los mercados de Iquique y Talcahuano.

Socialist Consumerism? Food distribution in Czechoslovakia during Normalization

Pavel Szobi

European University Institute

Palavras-chave:  Czechoslovakia, Normalization, food distribution, grocery stores, subsidized food, luxury food

This paper aims to clarify the conditions of food distribution in Czechoslovakia during the period of the so called Normalization in the 1970s and 1980s. It will first concentrate on the central myth of lack of goods, its quality and bottlenecks in food distribution in the public grocery network. Was the Czechoslovak planned economy generally capable of food production and its smooth distribution among the citizens? The essential question is whether the distribution was overall covered or it depended on specific regions, cities/countryside areas. The chronic shortage or occasional cut-offs in distribution will be explained on the examples of production autarchy and infrastructure limits. The author will then analyze three levels of distribution networks and peoples’ access to them: basic grocery stores with subsidized prices, high standard deli stores, and eventually foreign-currency-stores with imported or licensed food from the West. A special attention will be paid to restaurants and fast food chains, as well as to the importance of private plots and self-supplying. What was the role of these elements in bridging the gap between the offer and demand of some shortage meals? Based on these specific networks, the paper will determine in which extent food and its distribution contributed to the socialist consumerism and which parts of the society benefited from it most. The findings in the proposed paper are a research outcome from primary sources in the National Archives of Czech Republic, the State Regional Archive in Prague and the Land Archive in Olomouc.

 

Os Comissariados Gerais de Abastecimento nos anos 20: a intervenção de Francisco Peres Trancoso

Pedro Leal

FLUL

Palavras-chave: Primeira República; Primeira Guerra Mundial; Comissariado Geral dos Abastecimentos; Francisco Peres Trancoso; Subsistências.

O fim da I Guerra Mundial não assegurou, em Portugal, o regresso à liberdade comercial. O regime de excepção, que permitia um amplo controlo económico por parte do Estado, prolongou-se nos anos 20. Apesar das várias tentativas de liberalização, como a extinção do Ministério dos Abastecimentos, em 1919, os mecanismos de controlo estatais tiveram de ser novamente implementados.

Agravada por uma forte inflação, desvalorização da moeda e aumento da circulação fiduciária, em 1920, o custo do nível de vida subiu de forma impressionante, verificando-se a escassez de bens de primeira necessidade. Com a carestia, voltaram a assistir-se a motins, assaltos a lojas e padarias. Para combater a forte crise das subsistências, em Agosto seriam recriados os Comissariados Gerais de Abastecimento que ficariam na dependência do Ministério da Agricultura.

No final desse ano, Francisco Peres Trancoso (1877-1852), oficial da Marinha, tomaria posse do cargo de Comissário dos Abastecimentos. Ambicionando reformular substancialmente o trafego ferroviário e marítimo e determinado em melhorar a coordenação e eficácia no abastecimento dos mercados nacionais, Peres Trancoso desde logo mostraria uma atitude enérgica na apreensão e requisição de bens alimentares essenciais, tais como azeite, batata, açúcar, feijão, arroz, carne, pão e carvão.

Essa sua atitude vigorosa e firme, contra especuladores e açambarcadores, entraria, porém, em choque com as chamadas forças vivas, isto é, com os grandes industriais e comerciantes, e até contra membros do governo, situação que, a curto prazo, determinaria a sua substituição. Apear disso, a sua intervenção na vida politica e social continuaria, nomeadamente como ministro das Finanças no governo outubrista de Maia Pinto, após a Noite Sangrenta. Em Agosto de 1922, Peres Trancoso voltaria a ocupar, embora de forma meteórica, o cargo de Comissário Geral dos Abastecimentos.

Nesta comunicação pretendemos, pois, analisar a acção dos Comissários Gerais dos Abastecimentos, nos anos 20, com especial enfoque em Peres Trancoso. Como linha de fundo pretende-se estudar as variadas tentativas de abastecer os mercados nacionais, em plena crise de sonegação de géneros, o combate aos açambarcamentos, o aumento da produção nacional e a disputa entre liberdade de comércio e tabelamento de géneros. Inserindo esta temática no seu contexto social e político, pretende-se, assim, contribuir para o estudo do abastecimento e escassez alimentar após o final da Grande Guerra em Portugal.

 

Abastecimento e condicionamento alimentar no Grande Porto durante a Iª Guerra Mundial

Pedro Reis

FLUP

Palavras-chave: Grande Porto, Fome, Guerra, Condicionamento, violência

Em Outubro de 1914, surgiu a primeira referência a apoios alimentares para os mais pobres, com a criação de “cosinhas populares”, onde os mais pobres poderiam tomar uma refeição e três meses depois da sua abertura eram servidas 920 refeições em média por dia. Contudo praticamente após um ano de funcionamento este apoio social acabaria por ser encerrado por falta de verbas.

A situação para os trabalhadores tornou-se cada vez mais complicada, a falta de alimentos, os poucos que haviam eram vendidos a preços proibitivos para a maioria da população obrigando a intervenção do poder autárquico para tentar solucionar estes problemas.

Várias medidas foram tomadas: em abril de 1916, a confeção de pão a preços mais baixos para alimentar os operários, contudo, o pão era de fraca qualidade, a tentativa de fixar os preços de alimentos em tabela que redonda no maior fracasso, os preços não eram cumpridos e simplesmente desapareciam do circuito comercial os alimentos.

Apoio das corporações de bombeiros e da polícia na distribuição de bens alimentares, com as forças policiais a terem de usar da força para controlar a multidão quando ocorria essa distribuição e para por término aos assaltos a armazéns, padarias e vendedores de alimentos, etc. Tinham também um papel fundamental no controlo da qualidade de alimentos que eram colocados no mercado, havendo relatos de alimentos que eram envenenados pelos produtores: misturar água com leite era comum, petróleo com azeite também, tudo servia para aumentar os lucros e a quantidade de mercadoria.

Um problema que não afetou somente o Porto, como também os concelhos vizinhos, existindo conflitos entre concelhos pela disputa por géneros alimentares estando perante um cenário negro a alimentação no Grande Porto durante a Primeira Guerra Mundial.

 

De João da Matta aos Chefs da atualidade: a cozinha portuguesa entre o final do século XIX e o início do século XXI

Raquel Moreira

ESHTE e CRIA-FCSH/NOVA

Palavras-chave: gastronomia, cozinha, chef, restaurante

A gastronomia é hoje indiscutivelmente considerada um bem patrimonial de elevado valor identitário. Os Chefs de cozinha alcançaram uma notoriedade sem precedentes. A restauração modificou-se substancialmente e a cozinha tradicional renovou-se e reinventou-se, coexistindo com uma multiplicidade de outros tipos de cozinhas.

Mas nem sempre assim foi. No final do século XIX o papel do cozinheiro era bem diferente daquele que lhe é conferido na atualidade. João da Matta foi o mestre de cozinha de maior relevância do século XIX e dele se disse que afrancesou a cozinha e restauração lisboeta, modernizando-a. Um século mais tarde, no final do século XX, a cozinha portuguesa vira-se para si própria e inicia um processo de “emancipação” relativamente à matriz francesa e internacional, procurando novos caminhos como vista à afirmação de uma identidade própria. No início do século XXI, os nossos grandes Chefs já não procuram apenas o melhor fois-gras ou as melhores trufas, mas sobretudo os bons e genuínos produtos que se identificam com o território português. Esta renovação expressa-se também na diversificação de formas e conceitos de restaurantes e de espaços de comer. A gastronomia portuguesa alcançou um reconhecimento e uma notoriedade internacional, que se traduz, por exemplo, na satisfação dos turistas que nos visitam ou na recente atribuição de um maior número de estrelas Michelin a restaurantes portugueses.

Esta comunicação centra-se na evolução da cozinha e da gastronomia, desde o final do século XIX até ao presente. A análise é feita em três domínios interrelacionados: o perfil e o papel do Cozinheiro/Chef de cozinha; o receituário dos livros de cozinha publicados durante esse período; e a restauração enquanto palco da encenação e degustação das comidas e bebidas e reflexo dos hábitos gastronómicos e dos modelos estéticos de cada época. A metodologia utilizada é essencialmente a pesquisa e análise documental, designadamente livros e outras fontes impressas, menus, blogs e sites de Chefs de cozinha e de restaurantes. Recorre-se ainda a dados obtidos através da observação direta, relativamente à cidade de Lisboa.

 

What do we talk about when we talk about food? Outline of a new method for data collection in the study of food and culture.

Rhian Atkin

Universidade de Cardiff

Food, food practices and food cultures simultaneously mark out similarity and difference. In contexts of mobility – such as in migrant communities – food practices that differ from the established norms of the host culture are a sign of otherness, while the changes that recipes and food practices undergo may reveal the processes of acculturation and adjustment that occur in societal structures in response to migrations. In a transnational, transregional and transcultural world, where people move with greater ease and frequency, the relationship between food, culture and translation comes to the fore; yet this relationship remains under-researched. To understand food, food cultures and food practices of specific groups and specific people is to go to the very centre of lived experience.

In the context of migration history, food enables us to hear the stories that may not otherwise be told. Recipes and individual foodstuffs have the capacity to hold and mediate memories and they may unite people in their shared material and bodily experience. This paper will outline a project which focuses on the Portuguese-American community of New Bedford, Massachusetts. I will briefly outline the project and describe and evaluate a method for data collection which uses food as a conduit for the articulation of emotions, memories, and sensory experiences – for the stories that may not otherwise be told by conventional historiography and social sciences. The alternative stories that a study of food can reveal are especially important because they bring women – who have a central role in food practices – to the fore as producers of knowledge.

 

O papel da criatividade dos chefes de cozinha na definição de novos padrões alimentares.

Rita Marques

Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Palavras-chave: restaurantes, consumo de alimentos, chefes, criatividade.

Nesta comunicação apresenta-se os resultados de uma pesquisa realizada com os mais importantes chefes de cozinha de Belo Horizonte (Brasil). O estudo regional segue proposta de Fischler e Masson (2008), que privilegiam a relação do homem com a sua alimentação fundamental para compreender as particularidades da sua cultura. No estudo pretende-se discutir a comensalidade moderna (Moreira, 2010) por meio das refeições servidas em restaurantes à La Carte, tendo como pano de fundo a gastronomia e o trabalho dos chefes de cozinha. Esses profissionais, por meio da formulação dos cardápios, possibilitam aos clientes comerem o que desejarem, experimentarem novos sabores, e incorporarem novos modos alimentares (Shore, 2009). Portanto, o objetivo foi investigar e discutir o papel da criatividade dos chefes de cozinha na elaboração de cardápios e os impactos dessa ação no consumo de alimentos. Nesta investigação, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com chefes de restaurantes à la carte localizados na região centro-sul de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. As entrevistas aconteceram até a saturação das informações e o tratamento e interpretação dos resultados obtidos permitiram estabelecer uma relação entre o conteúdo manifesto nos discursos e a literatura científica pertinente. O processo criativo dos chefes e, consequentemente, sua influência nos novos modos alimentares da contemporaneidade, pode indicar um novo percurso para os estudos relacionados ao comportamento alimentar. Constatou-se que, em tempos de modernidade alimentar, a criatividade, a vivência pessoal e profissional e a emoção por ele provocada no cliente são fundamentos do trabalho do chefe de cozinha.

Referencias:

Fischler, C. Masson, E. Comer: a alimentação de franceses, outros europeus e americanos. São Paulo: Ed. SENAC, 2010

Moreira SA. Alimentação e comensalidade: aspectos históricos e antropológicos. Ciência e Cultura 2010; 62(4):23-26.

Shore E. Jantando fora: o desenvolvimento do restaurante. In: Freedman P(org.) Gastronomia: a história do sabor. São Paulo: SENAC; 2009. p. 301-331.

 

Testemunhos arqueológicos da produção e consumo de açúcar
Rosa Varela Gomes

FCSH-UNL

Apresentam-se as mais antigas evidências arqueológicas da produção açucareira identificadas em Portugal, assim como da sua ulterior implementação na Ilha da Madeira e no Brasil, através de testemunhos de engenhos, de recipientes para armazenamento e apresentação à mesa. Será tratado o consumo de açúcar, da botica à cozinha, assim como a sua grande importância económica e as consequências da utilização em excesso.

O Direito e a tradição gastronómica: conflitos ou não na Comensalidade

Rui Pinto de Almeida

CLEPUL/GESCO52

Palavras-chave: tradição; gastronomia; Direito; Diretivas Comunitárias; cultura

Se é verdade que o Direito regula as relações sociais, as tradições revelam as práticas e os rituais de cada grupo social. Contudo, a relação entre as duas entidades nem sempre é consensual, criando-se muitas vezes profundas tensões entre a Tradição e o Direito. Compreende-se: se a primeira emerge de um uso, de um hábito passado entre gerações, muitas vezes ligada a crenças, o segundo emana do Estado, é produto da racionalidade e tem força sancionatória. Daqui pode decorrer a ideia imediata de oposição, mas uma reflexão sobre estas tensões conduzem-nos inevitavelmente ao elo cultural que une estes opostos.

As tradições gastronómicas estão profundamente ligadas ao campo religioso ou profano – o cabrito na Páscoa ou a sardinha assada na Noite de Santo António, por exemplo -, mantendo-se os rituais alimentares por várias gerações, sem alterações substantivas. Nas últimas décadas, sobretudo depois de 1997, assistiu-se a uma forte tensão entre os produtos que compõem a gastronomia tradicional portuguesa e as diretivas comunitárias que condicionavam a sua produção, como aconteceu no caso das Cavacas das Caldas da Rainha. A defesa de um estatuto exclusivo para os produtos «ameaçados» permitiu-lhes não só continuarem a ser produzidos, como também viram chegar a certificação de origem, conferindo-lhes outros valores semióticos. Perceber as tensões entre o Direito e tradição gastronómica e as alterações que pode provocar na comensalidade é o tema que se pretende desenvolver neste trabalho.

 

O que estamos a fazer com os nossos mercados?

Sheila Palomares Alarcón

HERITAS – Estudos de património-CIDEHUS – Universidade de Évora

Palavras-chave: Mercados de ferro, Mercados Gourmet, Reuso, España

Da mesma forma que Les Halles de París marcou um precedente no século XIX e foi imitado no resto da Europa; parece que idêntico processo se deu com o mercado de San Miguel de Madrid que introduziu um novo conceito de mercado. Desde que foi inaugurado em 2009 (depois de ser comprado por um grupo de empresários) passou a ser para além de um mercado, um centro da cultura culinária onde se promove a venda dos produtos típicos madrilenos, fazem workshops de cozinha e também é um espaço para conferências ou concertos. Atualmente são numerosos os mercados em todo o mundo que adoptarem esta nova ideia, ainda que com algumas diferenças.

Começam a proliferar novos espaços, coloquialmente chamados “mercado gourmet”, que ocupam antigos edificios de mercados mas que têm uma utilização exclusiva como restaurantes, como é caso do Mercado Lonja de Barranco de Sevilla,que apesar de não manter em utilização como mercado, servem para regenerar áreas da cidade que foram abandonadas e normalmente ocupam espaços privilegiados.

Temos que considerar que os mercados municipais não estão a passar pelo seu melhor momento (com exceções) quer pela falta de manutenção, quer pela sua má gestão são numerosos os casos que não têm ocupadas as suas lojas com comerciantes ou inclusive não abrem todos os dias (especialmente nas áreas mais rurais). Outros têm sido renovados e são um exemplo de bom trabalho como é o mercado central em Cadiz ou mercado Atarazanas em Malaga (España)

Com esta comunicação pretende-se reflectir sobre a situação atual dos nossos mercados locais e do seu futuro porque eles são motores da actividade comercial nos bairros; eles são a alma de muitas das nossas cidades.

 

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